tenho um novo blog AQUI :)
Life isn’t about what happens to you, it’s about how you react to what happens to you.
... da página 25 do meu livro:
a chuva acrescenta-me um aconchego bom ao dia.
o "Sagração do Dia" não tem parágrafos e só tem 44 páginas ;)
há uma vizinha que grita com os filhos quase todos os dias. na casa antiga era assim. parecem a mesma pessoa. a voz é semelhante. o lamuriar das crianças é idêntico. a pronúncia é igual. dá uma sensação de antigo à casa nova. é familiar. e aí torna-se reconfortante!
tenho uma grande amiga. duas. são irmãs. vivem em moscavide. sempre me fizeram sentir especial. vieram de propósito ao lançamento do meu primeiro (e único) livro. tem muitos problemas de saúde mas veio de propósito ao meu quadragésimo aniversário. é linda.
há falta de espaço nesta casa. atravancada de baús. caixas. sacos. tralha da casa antiga que a minha mãe não quer largar. há falta de espaço nesta casa. os apegos enchem as estantes. os armários. as divisões. excepto o meu quarto. esse está orgulhosamente cheio de nada.
nunca tive raízes em lugar nenhum. excepto quando vivi em Lisboa. quase todos os anos tive de mudar de escola. nunca tive uma amizade contínua. não aprendi a ter. os meus pais nunca conviveram muito com ninguém. a minha mãe sempre se queixou das pessoas. ela não o vê.
não sei ter amigos. a minha irmã nunca atende o telemóvel. só responde aos sms. a caçula deixou de celebrar o Natal connosco. o meu pai recusa-se a ser pai. a minha mãe nunca está satisfeita. os meus tios mantêm-se à distância. a minha prima nunca está disponível. estou só.
numa overdose os pulmões e o coração páram. deixa-se de respirar. pode-se perder os sentidos antes ou não. sinto que tenho uma overdose de tristezas. incapaz de sentir. e não sei se vou conseguir cicatrizar. a Vida ainda não desistiu de mim. estou muito cansada. e desencantada.
a minha vida tem sido um rol de promessas quebradas. de ausências. de desencantos. não sei de onde vem a minha capacidade de sonhar. talvez seja como um antídoto. como quem busca oxigénio. o instinto de sobrevivência. preserva-me a inocência. mas que dói, dói.
descansar na mansidão azul do céu. um avião desenha um rasgo de branco. está uma luz de Verão. de dias de praia. saborear o aroma do orvalho. cheira a relva acabada de cortar. o dia traz memórias de infância. a luz transporta-nos no tempo. tenho saudades da minha avó.
nesta casa há sempre ruído. a televisão em altos berros a duas divisões de distância. a voz estridente da Júlia Pinheiro. o trânsito ininterrupto. as obras que se sobrepõem. os gritos do vizinho de cima. o choro das crianças. e o muito subtil chilrear dos pássaros como uma bênção.
estou com setenta e dois quilos há meses. o peso estagnou. o meu médico deixou de estar preocupado. diz que é um bom peso. eu gostava de voltar aos meus cinquenta quilos. de toda a vida. nunca tive barriga. tenho saudades do meu corpo. estou sem energia para nada.
a casa nova é num rés-do-chão. as pessoas páram na rua a conversar. o som entra no quarto. palavras soltas. há dias uma mãe gritava a um filho que pede a Deus para que ele reprove. para aprender a dar valor ao que tem. uma mãe deve ter mais cuidado com o que diz. ácida.
estive a ler o blog. a espantar-me com a minha própria escrita. escrevo sobre sentimentos que nunca vivi. com a destreza de quem sonha. ocupo os dias a brincar na FarmVille. tenho quatro quintas. tenho pequenas alegrias. a lentidão do computador boicota-me as colheitas.
estou - finalmente - a reduzir a medicação. quase sem ansiolítico. sem mal-estar. há dias acordei vazia. pensei em morrer. é provável que tenha de medicar este sentimento. o meu médico decidiu esperar para ver o que acontece. percebi que estou viva pela minha gata.
deixei voar Maio. o meu mês de nascimento. há sempre alegria na antecipação e uma sensação de balde de água fria no próprio dia. estou um ano mais velha. quarenta e um. estou um ano mais cansada. só os cabelos brancos como testemunhas. os meus olhos sorriem menos.
acabo de receber uma surpresa boa pelo correio: o discurso do amor em diferentes tons. os melhores de dez concursos de Textos de Amor, do Museu Nacional da Imprensa. na página 39 está o meu texto, 3º prémio em 2009 :) primeira edição: Fevereiro de 2011.
custa deixar a casa da nossa meninice. são quase quarenta anos de memórias guardados em todos os pormenores. é uma mudança lenta e dolorosa. a casa nova é quase metade desta e vamos ter de deixar muita coisa para trás. coisa boa: vou ter novamente um quarto só meu.
este tem sido um mês de ansiedades. ordem de despejo, casa nova a precisar de obras, o tempo a fugir e parece que nada se resolve. tivemos de abater um dos gatos. saudades e uma mágoa grande. dias tristes. na próxima terça começamos a mudança. que terá de ser por fases.